sábado, 16 de junho de 2018

108 Contos e Parábolas Orientais, # 11-20




11 Com fome, coma




Um jovem monge perguntou ao mestre Joshu:

— Mestre, o que é o despertar, a iluminação?

O mestre replicou:

— Quando estiver com fome, coma. Quando estiver cansado, durma.






12 Apenas duas palavras




Havia um mosteiro muito rígido. Seguia um estrito voto de silêncio, a ninguém era permitido falar. Mas havia uma pequena exceção a essa regra: a cada dez anos os monges tinham permissão de falar apenas duas palavras. Após passar seus primeiros dez anos no monastério, um jovem monge obteve permissão para ir falar ao Superior.

— Passaram-se dez anos — disse o monge Superior. — Quais são as duas palavras que você gostaria de dizer?

— Cama dura... — disse o jovem.

— Entendo... — replicou o monge Superior.

Dez anos depois, o monge retornou à sala do Superior.

— Passaram-se mais dez anos — disse o Superior. — Quais são as duas palavras que você gostaria de dizer?

— Comida ruim... — disse o monge.

— Entendo... — replicou o Superior.

Mais dez anos se foram e o monge uma vez mais encontrou-se com seu Superior, que perguntou:

— Quais são as duas palavras que você gostaria de dizer, após mais estes dez anos?

— Eu desisto! — disse o monge.

— Bem, eu entendo o porquê — replicou, cáustico, o monge superior. — Tudo o que você sempre fez foi reclamar!






13 Meditação e macacos




Um homem estava interessado em aprender meditação. Foi até um zendo (local de prática meditativa zen) e bateu na porta. Um velho professor o atendeu:

— Sim?

— Bom dia, meu senhor — começou o homem. — Eu gostaria de aprender a meditar. Como sei que é difícil e muito técnico, procurei estudar ao máximo, lendo livros e opiniões sobre o que é meditação, suas posturas, e assim por diante. Estou aqui porque o senhor é considerado um grande professor de meditação. Gostaria que o senhor me ensinasse.

O velho ficou olhando o homem enquanto este falava. Quando terminou, o professor disse:

— Quer aprender meditação?

— Claro! Quero muito! — exclamou o outro.

— Estudou muito sobre meditação? — disse, um tanto irônico.

— Fiz o máximo que pude... — afirmou o homem.

— Certo — replicou o velho. — Então vá e não pense em macacos.

O homem ficou pasmo. Nunca tinha lido nada sobre isso nos livros de meditação. Ainda meio incerto, perguntou:

— Não pensar em macacos? É só isso?

— É só isso.

— Bem, isso é simples de fazer — pensou o homem, e concordou. O professor, então, completou:

— Ótimo. Volte amanhã — e bateu a porta.

Duas horas depois, o professor ouviu alguém batendo freneticamente na porta do zendo. Abriu, e lá estava de novo o mesmo homem.

— Por favor me ajude! — exclamou, aflito. — Desde que o senhor pediu para que eu não pensasse em macacos, não consegui mais deixar de pensar em macacos, obsessivamente.





14 A lua




Um monge aproximou-se de seu mestre — que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da lua — com uma grande dúvida:

— Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório. O verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitos de palavras e que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Darma[1] está além das palavras, por que as usamos para explicá-lo?

O velho sábio respondeu:

— As palavras são como o dedo apontando para a Lua. Olhe para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta.

O monge replicou:

— Mas eu não poderia olhar a Lua sem precisar de um dedo que a indicasse?

— Poderia — confirmou o mestre —, e assim o fará, pois ninguém mais pode olhar a lua por você. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Darma é sempre presente e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio.

— Então — o monge perguntou —, por que os seres humanos precisam que seja revelado o que já é de seu conhecimento?

— Porque — completou o sábio —, da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que as pessoas se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também as pessoas não confiam na verdade já revelada pelo simples fato de ela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Dessa forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E, como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que o necessário.

O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou a lua.






15 A perfeição




Um monge jovem foi encarregado de varrer e limpar os jardins do templo. Cuidadosamente, removeu folha por folha. Era outono, e as folhas das árvores estavam espalhadas por toda parte. Com muita atenção ele as recolheu de entre os arbustos, varreu os caminhos e ficou satisfeito.

Poucos minutos depois, o mestre passou pelo jardim e chamou o noviço.

— O que está faltando aqui? — perguntou.

O noviço, apressado, viu uma folha caída no chão recém-varrido e correu para retirá-la.

O mestre sorriu. Aproximou-se da árvore de onde a folha viera e gentilmente a sacudiu. Folhas secas se espalharam graciosamente pelo chão.

— Agora, sim, está perfeito!






...




Quando, numa determinada tarde, suando e cansada, picada por pernilongos, com as pernas doloridas, eu ia retirar a última erva daninha de um dos cantos do jardim, uma jovem monja (mais antiga do que eu), se aproximou e disse:

— Deixe a erva daninha. Ela também tem direito e precisa viver. Há uma razão para sua existência, você não acha?

Então percebi que o trabalho no jardim não era apenas tirar tudo o que consideramos inadequado e feio, mas compreender que no grande jardim da existência cada manifestação precisa existir e ser respeitada.

Nessa tarde, o chá foi mais saboroso.




...




.




16 Poderes sobrenaturais




Certa manhã, o mestre Daie Soko (1089-1163), ao se levantar, chamou seu discípulo Gyozan e disse:

— Vamos fazer uma disputa para saber quem de nós dois possui mais poderes sobrenaturais?

Gyozan saiu sem responder. Dali a pouco, voltou trazendo uma bacia com água e uma toalha. O mestre lavou e enxugou o rosto, em silêncio. Pouco depois, Kyogen, outro discípulo, aproximou-se e perguntou:

— O que estão fazendo?

— Estamos fazendo uma competição com nossos poderes sobrenaturais — respondeu o mestre. — Quer participar?

Kyogen retirou-se calado e logo depois retornou trazendo uma bandeja com chá. O mestre Daie então dirigiu-se aos seus dois discípulos e exclamou:

— Na verdade, vocês superam em poderes sobrenaturais Sariputra, maudgalyayana[1] e todos os grandes discípulos de Buda!





17 Cipreste




Um monge perguntou ao mestre Joshu:

— Qual o significado de Bodidarma vir para o leste?[1]

O mestre disse:

— O cipreste no jardim.

O monge ficou irritado:

— Não, não! Não use parábolas aludindo a coisas concretas! Quero uma explicação!

— Então eu não vou usar nada concreto e serei claro — disse o mestre.

O monge esperou um pouco e, vendo que o mestre não iria continuar, fez a mesma pergunta:

— Então? Qual o significado de Bodidarma vir para o leste?

Mestre Joshu disse:

— O cipreste no jardim.






18 Paz mental




Finalmente, após muitos sofrimentos, Eka foi aceito por Bodidarma como seu discípulo. O jovem então perguntou ao mestre:

— Eu não tenho paz de espírito. Gostaria de pedir, Senhor, que pacificasse minha mente.

— Ponha sua mente aqui na minha frente, e eu a pacificarei! — replicou Bodidarma.

— Mas... é impossível fazer isso! — afirmou Eka.

— Então já pacifiquei a sua mente — concluiu o sábio.






19 Musashi Sensei




Musashi, quando jovem, era um guerreiro valente e audacioso, mas não sabia controlar sua força e seu temperamento. Estava sempre criando problemas e um dia foi preso. Seria julgado e talvez executado. No caminho, passou pelo templo de sua infância, e o monge Takuan o reconheceu. Insistiu com os soldados que deixassem Musashi amarrado de ponta-cabeça na árvore e sob seus cuidados. Ele dobraria a fera. Monge Takuan era confiável, amigo do senhor feudal. Assim foi feito.

Furioso, o jovem Musashi gritava para que o monge o soltasse, mas esse apenas ria debaixo da árvore. Musashi cuspia, falava de forma grosseira, mas o monge apenas ria, até que disse:

— Essa sua raiva pessoal não serve para nada. Se sua indignação fosse maior do que você, poderia sair dessa árvore.

Foi assim que o monge Takuan soltou Musashi e o treinou na arte zen do autoconhecimento para que se tornasse um dos maiores samurais do Japão.





20 Bolinhos de arroz




Um monge erudito, grande estudioso do Sutra do Diamante, estava viajando — sempre para discursar sobre o sutra. Carregava com ele um grande peso de tratados e explicações sobre o ensinamento.

No caminho, encontrou uma mulher idosa e simples, que vendia bolinhos de arroz. Cansado e com fome, falou à senhora:

— Gostaria de comprar alguns bolinhos, por favor.

— Que livros está carregando? — ela perguntou.

— É o meu comentário sobre o sentido verdadeiro do Sutra do Diamante — disse, orgulhoso.

Após um pequeno momento em silêncio, a senhora falou:

— Vou fazer uma pergunta. Se o senhor puder me responder, eu lhe darei os bolinhos de graça. Se não, terá de ir embora, pois não lhe vou vendê-los.

Achando-se capaz de responder a qualquer pergunta, quanto mais de uma pessoa sem os seus anos de conhecimento dos termos filosóficos, disse:

— Muito bem, pergunte.

— Está escrito no Sutra do Diamante que a mente do passado é inatingível, a mente do futuro é inatingível e a mente do presente é inatingível. Diga, então, com qual mente o senhor se alimenta?

Estupefato, ele não soube o que dizer. Por mais que procurasse em sua memória trechos do sutra, nada encontrava.

A senhora se levantou e comentou:

— Sinto muito, mas acho que terá de se alimentar em outro lugar — e partiu.

Quando o erudito finalmente chegou ao seu destino, encontrou o mestre do templo. Era tarde e, ainda abalado com o encontro anterior, sentou-se silenciosamente em frente ao mestre, esperando que ele iniciasse o debate.

O mestre, após algum tempo, disse:

— É muito tarde, e você está cansado. É melhor ir dormir.

— Muito bem — disse o intelectual, saindo para a escuridão do corredor.

O mestre, vindo de dentro do salão, trouxe para ele uma vela acesa. Quando pegou a vela trazida pelo mestre, este subitamente a assoprou, apagando a luz e deixando ambos silenciosos em meio à escuridão. Nesse momento, sua mente despertou.

No dia seguinte, dizem, levou todos os seus livros e comentários para o pátio e os queimou.






Sem comentários:

Enviar um comentário