domingo, 17 de junho de 2018

Hippie

Hippie – Paulo Coelho...



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Quem quer aprender magia deve começar olhando à sua volta. Tudo o que Deus quis dizer ao ser humano colocou bem na sua frente, a chamada Tradição do Sol.
A Tradição do Sol é democrática — não foi feita para os estudiosos ou puros, mas para as pessoas comuns. O poder está em todas as pequenas coisas que fazem parte do caminho de um homem; o mundo é uma sala de aula, o Amor Supremo sabe que você está vivo e vai lhe ensinar.

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mas uma frase da Bíblia, mais precisamente do Livro de Jó, não saía de sua cabeça: “O que eu mais temia me aconteceu”.

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Mas a natureza tem um ciclo que se repete na alma do ser humano: a planta produz a flor para que as abelhas venham e possam criar o fruto. O fruto produz sementes, que de novo se transformam em plantas, que outra vez fazem as flores desabrocharem, que chamam as abelhas, que fertilizam a planta e fazem com que produza frutos e assim até o final da eternidade. 

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Entendia melhor as palavras de Krishna ao guerreiro Arjuna, antes da batalha. Não era exatamente o que estava escrito no livro, mas em sua alma:

Lute porque é preciso lutar, porque você está diante de um combate.
Lute porque você está em harmonia com o universo, com os planetas, os sóis que explodem e as estrelas que encolhem e se apagam para sempre.
Lute para cumprir seu destino, sem pensar em ganhos ou lucros, em perdas ou estratégias, em vitórias ou derrotas.
Não busque gratificar a si mesmo, mas ao Amor Maior que nada oferece além de um contato breve com o Cosmos e para isso pede um ato de devoção total — sem questionamentos, sem perguntas, amar pelo ato de amar e nada mais.
Um amor que não deve a ninguém, que não é obrigado a nada, que se alegra simplesmente pelo fato de existir e poder se manifestar.”

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Registrou apenas as palavras que, imaginava ele, Deus lhe havia ditado:

Não existe diferença entre o mar e as ondas
Quando a onda cresce, ela é feita de água
E quando quebra na areia, também é feita da mesma água.
Diga-me Senhor: por que ambas as coisas são iguais? Onde está o mistério e o limite?
O Senhor responde: todas as coisas e pessoas são iguais; esse é o mistério e o limite.

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Mais alguns minutos e já tinha mudado de ideia — uma aventura é muito mais interessante que uma praça. Os antigos diziam que as mudanças são permanentes e constantes — porque a vida passa rápido. Se as coisas não mudassem, não haveria universo.

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“Que maravilha!”

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“Digamos que você é um guerreiro na frente de batalha e de repente o Senhor Iluminado vem assistir ao combate. Digamos que seu nome é Arjuna, e ele pede que não se acovarde, siga adiante e cumpra seu destino, porque ninguém pode matar ou morrer, o tempo é eterno. Acontece que você, que é humano, já passou por uma situação semelhante em uma das voltas desse tempo circular e vê a situação se repetir — mesmo que seja diferente, as emoções são as mesmas. Como é mesmo seu nome?”
“Paulo.”
“Então, Paulo, você não é Arjuna, o general todo-poderoso que temia ferir seus inimigos porque se achava um homem bom, e Krishna não gostou do que ouviu, porque Arjuna estava dando a si mesmo um poder que não tinha. Você é Paulo, de um país distante, que tem momentos de bravura e momentos de covardia, como qualquer um de nós. Nos momentos de covardia, você é possuído pelo medo.
“E o medo, ao contrário do que muitos dizem, tem suas raízes no passado. Alguns gurus do meu país afirmam: ‘Quando você caminha adiante, terá pavor do que vai encontrar’. Mas como vou ter pavor do que vou encontrar, se ainda não experimentei a dor, a separação, a tortura interior ou exterior?
“Você se lembra do seu primeiro amor? Entrou por uma porta aberta cheia de luz e você permitiu que ele ocupasse tudo, iluminasse sua vida, encantasse seus sonhos, até que, como acontece sempre com o primeiro amor, um dia foi embora. Você devia ter sete ou oito anos, ela era uma menina bonita da sua idade, arranjou um namorado mais velho e ali ficou você, sofrendo, dizendo que nunca mais em sua vida iria amar de novo — porque amar é perder.
“Mas você amou de novo — é impossível conceber uma vida sem esse sentimento. E continuou a amar e a perder, até que encontrou alguém…”


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Dirigiu-se até a fogueira e foi seguido pelos dois — porque todos ali viam na dança e na música uma maneira de libertar-se do corpo. De dizer a si mesmos: “Estamos esta noite aqui juntos e alegres, apesar das forças do mal haverem tentado nos separar. Estamos aqui juntos e continuaremos juntos pela estrada que está diante de nós, apesar das forças das trevas desejarem nos impedir de seguir adiante.
“Estamos aqui juntos e um dia, cedo ou tarde, teremos que dizer adeus. Mesmo sem conhecer um ao outro direito, mesmo sem termos trocado palavras que podiam ter sido trocadas, estamos aqui juntos por uma dessas razões misteriosas. Esta é a primeira vez que o grupo dança em torno de uma fogueira, como faziam os antigos quando estavam mais próximos de um universo e viam nas estrelas da noite, nas nuvens e nas tempestades, no fogo e no vento um movimento e uma harmonia, e por isso dançavam — para celebrar a vida.
“A dança transforma tudo, exige tudo, e não julga ninguém. Quem é livre dança, mesmo que esteja em uma cela ou em uma cadeira de rodas, porque dançar não é apenas repetir certos movimentos, é conversar com Alguém maior e mais poderoso que tudo e todos, é usar uma linguagem que está além do egoísmo e do medo.”
E, naquela noite, em setembro de 1970, depois de terem sido expulsos de um bar e humilhados pela polícia, aquelas pessoas dançavam e agradeciam a Deus por uma vida tão interessante, tão cheia de coisas novas, tão desafiadora.


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O sufismo reconhece apenas uma verdade: nada pode ser dividido, o visível e o invisível caminham juntos, as pessoas são apenas ilusões em carne e osso. Por isso não se interessara tanto pela conversa sobre realidades paralelas. Somos tudo e todos ao mesmo tempo — tempo que, por sinal, tampouco existe. Esquecemos isso porque somos bombardeados diariamente com informações em jornais, rádio, televisão. Se aceitamos a Unidade, não precisamos de mais nada. Vamos conhecer o significado da vida por um breve momento, mas esse breve momento nos dará força para chegar até aquilo que chamam de morte e que, na verdade, é uma passagem para o tal tempo circular.

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O homem fez uma reverência ao ouvir o nome. Paulo sentou no chão.
“E como posso aprender? Já li muito de suas poesias, mas não entendo como ele as colocava em prática.”
“O homem em busca da espiritualidade pouco sabe, porque está lendo a respeito e tentando encher seu intelecto com aquilo que julga sábio. Venda seus livros e compre loucura e deslumbramento — então você estará um pouco mais perto. Livros trazem opiniões e estudo, análises e comparações, enquanto a sagrada chama da loucura nos leva à verdade.”
“Não estou carregado de livros. Vim como uma pessoa em busca da experiência — neste caso da experiência da dança.”
“Isso é busca de conhecimento, não é dança. A razão é a sombra de Allah. Que poder tem a sombra diante do sol? Absolutamente nenhum. Saia da sombra, vá até o sol e aceite que seus raios o inspiram mais que palavras sábias.”
O homem apontou para um lugar onde entrava um raio de sol, distante uns dez metros de sua cadeira. Paulo foi até o lugar indicado.
“Faça uma reverência ao sol. Permita que ele inunde sua alma — porque o conhecimento é uma ilusão, o êxtase é a realidade. O conhecimento nos enche de culpa, o êxtase nos faz comungar com Aquele que é o Universo antes de existir e depois de ter sido destruído. O conhecimento é tentar lavar-se com areia, quando existe um poço de água cristalina ao lado.”


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Meu amado, minha luz, que sua alma continue em adoração perpétua.

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O silêncio ensina se você deixar-se mergulhar no Grande Silêncio. O silêncio pode ser traduzido em palavras, porque esse será seu destino, mas quando isso acontecer, não tente absolutamente explicar nada, e faça com que as pessoas respeitem o Mistério.
Você quer ser um peregrino no caminho da Luz? Aprenda a caminhar no deserto. Converse com o coração, porque as palavras são apenas acidentais — e, embora você precise delas para comunicar-se com os outros, não se deixe trair por significados e explicações. As pessoas escutam apenas aquilo que querem, jamais tente convencer ninguém, siga apenas o seu destino sem medo — ou até mesmo com medo, mas siga o seu destino.
Quer alcançar o céu e chegar até mim? Aprenda a voar com duas asas — disciplina e misericórdia.


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Caminhem juntos, bebam e se alegrem com a vida, mas mantenham distância para que um não precise amparar o outro — a queda faz parte do caminho, e todos precisam aprender a se levantar sozinhos.

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“Ninguém sabe. Mas, se quisermos ser bem franceses e tentar definir tudo, a ideia de sexo, vegetarianismo, amor livre e vida em comum tem sua origem na Pérsia, em um culto fundado por um sujeito chamado Mazdak. Não sobrou muito material sobre ele. Entretanto, como nós estamos sendo obrigados a escrever cada vez mais a respeito desse movimento, alguns jornalistas descobriram uma origem diferente: entre os filósofos gregos chamados cínicos.”
“Cínicos?”
“Cínicos. Nada a ver com o sentido que damos hoje à palavra. Diógenes foi seu propagador mais conhecido. Segundo ele, as pessoas deviam deixar de lado o que a sociedade impunha — todos nós fomos educados para ter mais do que precisamos — e voltar aos valores primitivos, ou seja, viver em contato com as leis da natureza, depender de pouco, ficar contente com cada novo dia e rejeitar por completo aquilo para o qual todos eram educados — poder, ganância, avareza, coisas do tipo. O único propósito da vida era libertar-se do que não necessitavam e encontrar alegria em cada minuto, em cada respiração. Diógenes, por sinal, vivia em um barril, conta a lenda.”


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“A ideia se propagou durante o cristianismo, quando os monges iam procurar no deserto a paz para o contato com Deus. E continuou até os dias de hoje, através de filósofos conhecidos, como o americano Thoreau ou o libertador da Índia — Gandhi. Simplifique, diziam todos. Simplifique e será mais feliz.”
“Mas como isso de repente virou uma espécie de moda, de maneira de vestir, de ser cínico no sentido atual da palavra — não acreditar nem em direita nem em esquerda, por exemplo?”
“Isso eu já não sei. Dizem que foram os grandes concertos de rock, como Woodstock. Dizem que foram certos músicos, como Jerry Garcia e o Grateful Dead, ou Frank Zappa e The Mothers of Invention, que começaram a fazer shows gratuitos em San Francisco. Por isso estou aqui perguntando a vocês.”


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“Mas preciso de alguém para me guiar no caminho da verdade.”
“O sufismo não é isso. Milhares de livros já foram escritos sobre o caminho da verdade e nenhum deles explica exatamente o que é. Em nome da Verdade, a raça humana cometeu seus piores crimes. Homens e mulheres foram queimados, a cultura de civilizações inteiras foi destruída, os que cometiam os pecados da carne eram mantidos à distância, os que procuravam um caminho diferente eram marginalizados. Um deles, em nome da ‘verdade’, terminou crucificado. Mas, antes de morrer deixou a grande definição da Verdade. Não é o que nos dá certezas. Não é o que nos dá profundidade. Não é o que nos faz melhor que os outros. Não é o que nos mantém na prisão dos preconceitos. “A verdade é o que nos faz livres. ‘Conheceis a Verdade e a Verdade vos libertará’, disse Jesus.”
Deu uma pausa.
“O sufismo nada mais é que atualizar a si mesmo, reprogramar sua mente, entender que as palavras são limitadas para descrever o absoluto, o infinito.”


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